5 de fevereiro de 2007

O INÍCIO DA VIDA HUMANA?

O Feto enquanto Pessoa

A visão religiosa:
«A vida humana começa no acto da concepção»
A procura do prazer, o “fazer amor”, o preservativo furado, a queca arrancada à força, ou a foda bem dada, … o milagre da vida!
A visão da biologia:
«A vida humana começa no acto da fecundação»
Considera o início de um ciclo de vida com a formação do ovo, quando o espermatozóide fecunda o óvulo. Olha para a vida como um todo e não distingue a humana de um rato ou de uma alface.
A visão da genética:
«A vida humana começa com a formação do genoma»
O genoma humano é constituído 3 a 6 dias após a fecundação. Ou seja, está lá o potencial não o factual. Até porque a informação genética que herdamos dos progenitores não passa mesmo disso “informação genética” (software), sem o processador/cérebro (hardware) não vale de nada.
Software que se deita fora sempre que se “bate” uma pívia (macho) ou ocorre o sangramento (fêmea).
A minha visão:
«A vida humana começa quando se forma o córtex cerebral»
A formação do córtex cerebral, órgão que desempenha as funções que nos distinguem de outros animais, ocorre cerca das 12 semanas de gestação. O pensamento, a compreensão, o julgamento, a linguagem, a racionalização do pensamento.
Parece-me bastante evidente e coerente assumir esta fase como ponto de partida para o início da vida humana.
Aliás o fim da vida humana é considerado quando se dá a morte cerebral ( quando o córtex cerebral deixa de ter actividade).
Se serve para o fim também deverá servir para o início.

«Penso, Logo existo» - Descartes

10 comentários:

Rui Guerra disse...

e as teorias de António Damásio?

rb disse...

"Software que se deita fora sempre que se “bate” uma pívia (macho) ou ocorre o sangramento (fêmea)."

Nem tanto ao mar nem tanto a serra. No mínimo é um software conjunto que é diferente do individual de cada um.

Imagina aqueles que queriam ter um filho, a mulher engravida, só que depois há um aborto expontâneo, até às 10 semanas. Qual é o sentimento? É o de perda de uma vida ou não?

No entanto, apesar de discordar dessa tua opinião, que é legítima, não é isso que está em discussão neste referendo, apesar, dos adeptos do 'não' se esforçarem por levar a conversa unicamente para esse lado.
A questão é jurídica e não medica ou biológica.

Gaspas disse...

Segundo o que li sobre o assunto, António Damásio no seu livro "O Mistério da Consciência",afirma que é importante estabelecer uma diferença entre a consciência do aqui e agora, do presente, e a consciência que está relacionada com a espécie humana e com o inconsciente colectivo herdado. Damásio distingue entre consciência nuclear, a consciência simples, não exclusivamente humana nem dependente da memória ou do raciocínio, e consciência alargada, a consciência mais complexa, que permite "níveis de conhecimento que abrem caminho à criatividade humana". Ambas se interrelacionam, sendo a consciência alargada dependente da consciência nuclear. No entanto, a consciência nuclear pode existir sem a consciência alargada.
O que continua a diferenciar o Humano dos restantes animais não é a sua consciência de si (consciência nuclear), mas sim a sua capacidade criativa, o "SI" auto-biográfico. (consciência alargada)
Ora, esta posição não interfere com a minha posição em relação ao início da vida.

Gaspas disse...

R.B.
«Imagina aqueles que queriam ter um filho, a mulher engravida, só que depois há um aborto expontâneo, até às 10 semanas. Qual é o sentimento? É o de perda de uma vida ou não?»
Para mim não.
É quase a mesma coisa que jogar no euromilhões, não sair e afirmar que se perdeu 100.000.000€!

rb disse...

«Para mim não.
É quase a mesma coisa que jogar no euromilhões, não sair e afirmar que se perdeu 100.000.000€!»

Se calhar falas assim porque nunca passaste pela experiência.

E não percebo essas tuas probabilidades. Isso quer dizer que uma grávida, até às 10s, tem a mesma probabilidade de chegar ao termo que a de sair o euromilhões. Que raio de comparação é essa?!

Rui Guerra disse...

vou fazer-te mais uma pergunta: em que estado nasce um bebé?
já agora outra, que capacidades de pensamento tem um recém nascido?
e uma terceira, as outras espécies à nascença são mais evoluidas que os humanos ou não?

rb disse...

Desculpa intrometer-me mas, na tua 3.ª pergunta, quando falas em evoluídas em que é que estás a pensar. Mais evoluídas em quê?

Já agora, gostei e identifico-me mais com esta outra posição, da Rititi, A Vida não é um Feto de 10 semanas:
http://sim-referendo.blogspot.com/2007/02/vida-no-um-festo-de-dez-semanas.html

rb disse...

Não saiu bem o link mas, se ainda não foram, vão lá ao blog e procurem pelo título.

Gaspas disse...

Caro R.B.
Peço desculpa pela demora no comentário mas tenho andado muito ocupado.
concordo contigo quando afirmas que "A questão é jurídica e não médica ou biológica." , mas aqui não se trata apenas do referendo.
O exemplo do Euromilhões não foi o mais feliz. Embora não se tratasse de uma comparação na forma mas sim na espetactiva. Troco esse por este:
Uma tela em branco, um conjunto de tintas e um pintor consagrado, não podemos afirmar estar perante uma obra de arte.
E talvez tenhas razão quando dizes
«Se calhar falas assim porque nunca passaste pela experiência.»
não sei.

Gaspas disse...

Caro Rui,
mais uma vez peço desculpa pela resposta tardia, mas tu dás-me trabalho de pesquisa.

Resposta 3 em 1:

Segundo Piaget
O Primeiro estágio - Sensório motor (ou prático) 0 – 2 anos: trabalho mental: estabelecer relações entre as acções e as modificações que elas provocam no ambiente físico; exercício dos reflexos; manipulação do mundo por meio da acção. Ao final, constância/permanência do objecto.

Outras pesquisas:


O cérebro fetal
À medida que o feto se desenvolve o seu cérebro é indistinguível do cérebro de um peixe, de uma tartaruga, de um lagarto, de um pássaro ou de um macaco. O cérebro do feto atravessa milhões de anos de desenvolvimento do cérebro em apenas 9 meses. O desenvolvimento é rápido. Todos os minutos são formadas 250.000 novas células nervosas. Ao mesmo tempo, as várias partes do cérebro especializam-se nas respectivas actividades.

Um bebé nasce com 125 mil milhões de células cerebrais, mas o cérebro, em si mesmo, ainda não está completamente desenvolvido. O cérebro dos bebés recém nascidos pesa 25% e dos bebés de dois anos pesa 75% do peso final do cérebro. Com um ou dois anos de idade verifica-se o isolamento da gordura e de outras substâncias à volta das fibras nervosas de modo a permitir que os sinais nervosos possam passar mais depressa.
Quando a criança aprende coisas novas, as células nervosas formam novos contactos e moléculas importantes são guardadas nas células cerebrais. Este processo vai continuar ao longo da vida, embora se verifique um abrandamento a partir dos 50 - 60 anos de idade. O cérebro alcança praticamente a sua dimensão óptima quando a criança tem 12 anos de idade. São necessários praticamente 20 anos para que todas as ligações entre as várias partes do cérebro se desenvolvam na totalidade.

A herança cultural:
O contexto cultural permite uma acumulação de informações dentro do grupo, que se
reflectem em crenças, práticas e rituais. As formas de transmissão social variam desde
mera exposição facilitadora de certos desempenhos a modelos mais experientes até
instruções formais dirigidas. Entre outras coisas, a cultura dispensa o indivíduo de
aprender por ensaio, tudo de novo, a cada geração, ao mesmo tempo em que permite a
adição de novas aprendizagens decorrentes das experiências de cada um. Este arranjo
parece possibilitar o ajustamento a uma grande variedade de desafios do meio, como a
própria história da humanidade pode atestar.
Costumamos nos orgulhar desta capacidade, que nos distancia dos demais animais, que
nos confere certo poder sobre as forças naturais e que, até certo ponto, parece nos
libertar da nossa própria natureza.
Em parte, a ideia da peculiaridade se justifica. Embora a adaptação ao meio através de
aprendizagem individual seja facto comum nos animais em geral, e ainda que os primatas
apresentem alguma tendência à aprendizagem social e à transmissão cultural, no caso
humano estes traços alcançaram níveis extremamente diferenciados

A Linguagem como herança e factor evolutivo:
A linguagem é, aliás, uma excelente evidência para a acção decisiva da evolução sobre os comportamentos culturais, facto que não tem escapado aos diversos estudiosos do
assunto (Passinghan, 1982; Foley, 1996). Se de um lado ela pode ser entendida como essencial à cultura, como fruto desta, por outro, está fortemente enraizada em propriedades biológicas ligadas à estrutura cerebral, à anatomia do sistema fonador e à herança da capacidade lingüística.
A aquisição da linguagem pelo recém-nascido não é a imposição de um sistema arbitrário ou convencional de códigos por parte dos adultos a um aprendiz inteligente. Não se trata de um processo de ensaio-e-erro com reforçamento dos acertos. O talento do recém-nascido humano para adquirir a linguagem é uma habilidade específica dotada de motivação própria. O ser humano é biologicamente lingüístico; nasce com os recursos cognitivos, motivacionais, fisiológicos e anatómicos para entender e usar a linguagem humana que se estiver falando no seu ambiente. Por sua vez, as línguas humanas são construídas, mantidas e transformadas por esses mesmos seres humanos que as adquirem a cada geração. E todos os seus aspectos - sonoros, rítmicos, melódicos, léxicos, sintácticos, etc. -decorrem das características dos indivíduos que as produzem.
Para entender as línguas -suas características e evolução - é preciso entender o ser psicobiológico que as inventou. A diversidade lingüística -o fato de milhares delas terem
sido criadas - não nos deve confundir. Não apenas o que é comum a todas elas, mas também a própria variedade constituem indicadores importantes sobre o curso da evolução biológica da habilidade lingüística.

A diferenciação humana:
Os bebês nascem com uma forte tendência para a vinculação afectiva. Em primeiro lugar, chama a atenção à capacidade de responder preferencialmente a sinais do contacto afectuoso do adulto. Mesmo bebés prematuros reagem ao olhar e à fala carinhosa abrindo mais os olhos e mantendo-se em maior estado de atenção (Eckeman et al, 1994).
Claramente, há um processo de reconhecimento individual e de vinculação afectiva em
andamento desde o início, revelado pela tendência à vinculação personalizada. Nas primeiras semanas de vida os bebés discriminam e preferem a voz e o odor de suas mães (MacFarlane, 1975; Schaal et al, 1980). Com 45 horas de vida discriminam a face da mãe (Field et al, 1984) e com 3 semanas, preferem-na em relação à de um estranho (Carpenter, 1973). Embora as reacções típicas de apego e de medo de estranhos tendam a aparecer depois do oitavo mês (Bowlby, 1984), são surpreendentes os indicadores mais precoces: entre 8 e 16semanas as crianças já reagem a estranhos e usam a mãe como base de segurança (Mizukami et aI, 1990).

Diversas formas de compartilhamentos básicos, típicos da interação humana, estão presentes desde o início. Recém-nascidos são capazes de igualar, sem ensaio, expressões faciais exibidas por outra pessoa, durante a interacção (Meltzoff et aI, 1977,1983; Field et ai, 1982). Também ocorrem igualações vocais: bebés de dois meses emitem vocalizações simultâneas às da mãe, no mesmo tom. (Papousek et aI, 1984). Os bebés coordenam a movimentação geral do corpo, em ritmo com a fala que ouvem, o que tem sido chamado de sincronia inter-accional (Condon et ai, 1974).

E muito mais haveria a dizer...
Fica para a próxima!
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